Dizem que o primeiro beijo a gente nunca esquece. Pois nem o primeiro mangá. Afinal, no começo, dá um certo trabalhinho fazer o cérebro ler uma revista de trás pra frente e da direita para a esquerda (porque assim é a escrita japonesa), numa ordem completamente diferente da qual estamos habituados. Mas não demora muito para se familiarizar com o formato oriental e entrar de vez nas aventuras dos personagens.
Mangá em japonês quer dizer História em Quadrinhos, literalmente. Porém, com o passar do tempo, o nome virou sinônimo do estilo japonês de desenhar. Mas se você já viu um mangá, deve ter se perguntado: se os personagens são japoneses, por que eles têm aqueles olhos enormes? Afinal, os orientais não possuem os charmosos olhos puxadinhos? Quem explica isso é o professor de mangá Marco Abe, da escola Animangá, de São Paulo: "O olho maior ajuda a expressar melhor os sentimentos. Com poucas mudanças de traço, você consegue dar inúmeras expressões ao personagem". E mais: às vezes, alguns quadrinhos dentro da história não tem texto, daí a importância de caprichar no desenho.
O "pai" do mangá moderno é Osamu Tezuka (autor de A Princesa e o Cavalheiro e Speed Racer, entre muitos outros títulos). Foi ele, aliás, quem empregou os estilos marcantes, como os olhos grandes. Lá no Japão, na época pós-guerra, o mangá era uma das formas mais populares de entretenimento, já que a situação estava bem difícil para se curtir uma sessão de cinema, por exemplo. Além do mais, como não havia maneira de colorir os desenhos, ele já chegou em branco e preto, característica que mantém até hoje.
As revistinhas ainda ganharam um incentivo extra do governo japonês, que apostou nesse meio como forma de educar. Não é a toa que existe uma variedade enorme de temas. Aqui no Brasil, os de luta têm grande espaço, assim como as histórias românticas e as comédias adolescentes. Mas é possível agradar todos os gostos com temas como esportes, terror, suspense, adultos, dramas... No Japão, tem até mangá de culinária!
Você sabia?
• Os americanos até já tentaram inverter a ordem do mangá na intenção de facilitar a leitura para os ocidentais. Mas não deu certo! Segundo o professor Marco Abe, a "tradução" dos mangás japoneses acabavam sem sentido, porque os personagens já são colocados numa ordem pensada para a leitura de trás pra frente. Ou seja: o jeito foi se acostumar com a formar diferente de ver uma história.
• Mesmo que você só saiba rabiscar bonequinhos estilo "palitinho" ou "porta de banheiro", pode aprender a desenhar personagens japoneses. Segundo o professor de mangá Fábio Shin, do Mangá Studio Japan Sunset, de São Paulo, o aluno precisa de paciência, observação e muita determinação para se aprimorar na técnica.
• Para criar uma história de mangá você precisa fazer uma boa pesquisa antes. "Se for desenhar uma história medieval, por exemplo, tem que estudar um pouco sobre como eram as armaduras e a história naquela época", indica o professor Marco Abe. A internet está aí pra isso, não é mesmo?
Se liga: as revistinhas são numeradas. Portanto, é mais interessante você procurá-las desde o número 1. Algumas sugestões: Naruto, Death Note, Bleach, Sakura, Cardcaptors e Love Hina.
Animado, animadíssimo... Anime!
Se você já ouviu falar em Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon, Sailor Moon, Yu-Gi-Oh, com certeza já sabe o que é anime. Com formato bem diferente dos desenhos ocidentais, os animes tem legiões de fãs, que não conseguem desgrudar os olhos da tela.
O anime, "desenho animado" em japonês, apareceu depois do mangá. E, ao contrário dos quadrinhos, que são originalmente japoneses, eles sofreram uma boa influência americana. Foi só depois da guerra que o Japão teve mais contato com os desenhos animados dos Estados Unidos e, na década de 50, artistas nipônicos passaram a investir nessa área do entretenimento. Valeu a pena!
O professor de mangá Fábio Shin, que também tem formação em animação, conta que há grandes diferenças entre o anime os desenhos ocidentais. "A intensidade dos movimentos é maior", explica. O movimento em uma animação da Disney, por exemplo, precisa de muitos mais desenhos do que em um anime. Ou seja, é bem mais rápido! Além disso, há vários recursos bastante característicos do anime, como o jogo de câmera - tem bastante zoom, por exemplo.
Quanto tempo demora para fazer um episódio? "No Japão, uns três meses", conta Fábio Shin, mas por aqui, segundo ele, pode levar o dobro de tempo já que no Brasil, infelizmente, ainda não há tanta estrutura quanto no país do sol nascente.
Você sabia?
• Nos anos 80 e 90, muita gente assistia a desenhos sem saber que se tratavam de produções japonesas. "O Pequeno Príncipe", história original do francês Antonie de Saint-Exupéry, por exemplo, era um anime.
• No Orkut, há mais de mil comunidades dedicadas ao anime e um sem-número de fakes dos personagens. Se você quiser interagir com a galera que é fã e pedir dicas, já sabe onde encontrar.
Se liga: para ver um anime, não é preciso ir muito longe. Além de encontrar vários títulos em DVD, na TV não faltam opções. O canal a cabo Animax, por exemplo, só transmite desenhos do gênero e tem historinhas para todos os gostos. Em programas de canal aberto como a TV Globinho, da Rede Globo, também é possível assistir a animes. Outras dicas para você ficar de olho, além dos já citados na matéria: Avatar - A Lenda de Aang, Evangelion e o filme A Viagem de Chihiro.
Um show à parte
Tem gente que ama tanto os mangás e animes que faz deles seu estilo de vida. Não, ninguém sai achando que tem poderes mágicos ou crente de que encarnou um samurai.
Estamos falando da galera que curte o Cosplay, abreviação de "Costume Player" (costume é fantasia, em inglês). A mania surgiu nos Estados Unidos, mas tem adeptos no mundo todo, que se vestem como personagens de mangá, anime e videogame.
A estudante de Webdesign Monica Somenzari, 20 anos, é uma cosplayer, digamos, profissional.
Seu amor pelos desenhos japoneses começou em 1995, quando ela via animes pela televisão. Um belo dia, seu irmão, que também é aficionado pelo tema, a convidou para ir a um evento de Cosplay.
Desde então, em 2003, Monica encontrou sua turma e não a largou mais. Em 2006, ela foi a campeã brasileira de Cosplay em dupla com o irmão. A vitória os levou para o Japão, no WCS (World Cosplay Summit), onde concorreram com 11 duplas de vários países. O resultado? "Fomos os primeiros brasileiros a competir no Japão e ainda ganhamos!", conta a jovem, fã de Sakura Cardcaptor. A fantasia de Monica era da personagem Alexiel, do mangá Angel Sanctuary, e a do irmão, de Rossiel, da mesma história. "Foi um sufoco embarcar para o Japão carregando as asas das nossas fantasias. Ao todo são seis, que medem 1,20m por 70cm".
Para ser uma Cosplayer é preciso muito mais do que uma paixão e uma peruca colorida: tem que ter criatividade. "A gente deve mudar de fantasia sempre", explica Monica. Juliana Alves, 19 anos, sabe bem o que é isso. A garota não só participa de eventos, como ela própria cria suas fantasias. A iniciativa deu tão certo que hoje ela tem uma loja virtual para cospleyers, a Lollipop Store (www.lollipopstore.net). Lá, ela vende as roupas sob medida, além de vários enfeites para incrementar os personagens. Quando a pergunta é: "qual é o seu tipo de garoto?", ela não tem dúvida: "os de olhos puxados".
O Japão é aqui!
Andar pelo bairro da Liberdade, em São Paulo, é como viajar um pouco sem sair da cidade. Aliás, viajar muito! Mesmo sabendo que estamos no Brasil, basta caminhar observando lojas, restaurantes e aqueles postes charmosos do bairro japonês, e já é possível entrar no clima do Oriente. A revista Atrevida passeou por lá com as fãs de mangá e anime Monica Somenzari e Juliana Alves, que não têm nenhum parente oriental, nem de longe, para dar um rolê pela Liberdade. Lá, elas mostram seus lugares preferidos. Vê só!
> Primeiro, paramos no shopping SoGo, onde as meninas costumam comprar bonequinhos chamados "Gashapon", que são os personagens das histórias japonesas em miniatura. Além de fazerem coleção, as meninas tem outra razão forte para o investimento. "Eles servem de referência para criarmos nossas fantasias", conta Monica.
> Algumas ruas para cima, Juliana nos mostra o Karaokê que costuma frequentar com os amigos, chamado "Porque Sim". Ela garante que canta bem em japonês. E, apesar de não falar o idioma, sabe exatamente o que está cantando. "Tem a tradução embaixo", revela. Assim até eu!
> Passear pelas ruas também é um passatempo. Afinal, não faltam coisas para ver - e comprar.
> Terminamos o trajeto na feirinha de artesanato, que acontece todos os fins de semana na Praça da Liberdade.
Livros
Aprenda Japonês Lendo Mangá (Editora JBC)
Esta é uma série de livros que ensina, de maneira divertida, a ler no idioma. Para quem faz questão de curtir os mangás originais.
Para Se Descolar Em Japonês (Editora JBC)
Se seu negócio, definitivamente, não é mangá e anime, não tem problema. Com este guia de conversação, superjovem, você aprende o japonês do dia-a-dia. Tem dicas para paquera e até brigas no idioma!
Você vem sempre aqui?
(Yoku koko kuru-no?)
Qual o número do seu telefone?
(Denwa bango oshiete-kureru?)
Quando posso ver você de novo?
(Kondo itsu aeru?)
Alô?
(Moshi-moshi?)
Qual o seu e-mail?
(Adoresu wa?)
Quero ver você.
(Aitai.)
De onde você vem?
(Dokkara kita-no?)
Sites
Consiga o seu próprio mangá! (www.fabioshin.com)
Muita arte e quadrinhos (www.marcoabe.deviantart.com)
Estampas para camisetas (www.animanga.com.br)



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